
Kaspersky foi banida? O que aconteceu e o que muda no Brasil
A Kaspersky foi proibida de vender e atualizar seus produtos nos Estados Unidos por decisão do Departamento de Comércio americano, anunciada em junho de 2024. A medida vale para aquele país. No Brasil, a empresa opera, vende e presta suporte normalmente.
A confusão em torno do tema é compreensível, porque a decisão americana produziu efeitos que apareceram no mundo todo. Abaixo, a cronologia e o que cada lado alega.
A cronologia
| Quando | O que aconteceu |
|---|---|
| 20 de junho de 2024 | O Departamento de Comércio dos EUA anuncia a determinação final restringindo venda e distribuição do software no país. A justificativa aponta risco à segurança nacional pela localização da empresa na Rússia. |
| 20 de julho de 2024 | A Kaspersky, que inicialmente cogitou contestar, conclui que a operação americana deixou de ser viável e começa o encerramento gradual das atividades no país. |
| 19 de setembro de 2024 | Clientes americanos são migrados automaticamente para o UltraAV, do Pango Group. A troca ocorre por atualização, sem aviso no dia, e gera reclamações de usuários que suspeitaram de invasão. |
| 29 de setembro de 2024 | Entra em vigor a proibição de venda e de atualização nos Estados Unidos. |
| Outubro de 2024 | O Google encerra a conta de desenvolvedor da Kaspersky e remove os aplicativos da Play Store em diversos países, inclusive no Brasil. |
O que alega o governo americano
A determinação sustenta que a localização da empresa na Rússia cria risco de que informações pessoais de americanos sejam coletadas e utilizadas de forma maliciosa. A então secretária de Comércio, Gina Raimondo, manifestou preocupação com a possibilidade de o governo russo se valer de companhias como a Kaspersky para esse fim.
A restrição alcançou venda direta, revenda, licenciamento e fornecimento de atualizações.
O que alega a Kaspersky
A empresa considera a decisão injustificada e infundada, atribuída a tensões geopolíticas e não a uma avaliação técnica de seus produtos e operações. Em seu posicionamento oficial, sustenta que não se envolve em atividades que ameacem a segurança nacional dos Estados Unidos e que suas pesquisas contribuíram para a proteção de interesses americanos e de seus aliados.
A companhia afirma ainda ter proposto um sistema no qual a segurança de seus produtos poderia ser verificada de forma independente por um terceiro de confiança, proposta que não prosperou.
O efeito colateral: a Play Store
A decisão de maior impacto prático para o usuário brasileiro não foi a proibição em si, e sim seu desdobramento.
Em outubro de 2024, o Google removeu os aplicativos da Kaspersky da Play Store e encerrou a conta de desenvolvedor da empresa, citando as restrições anunciadas pelo Bureau of Industry and Security. A remoção atingiu usuários em diversos países.
A Kaspersky discordou publicamente, argumentando que as restrições americanas não têm efeito legal fora dos Estados Unidos e que o Google agiu com base em interpretação exagerada da medida. Informou ainda ter comunicado esse entendimento ao Departamento de Comércio.
Na App Store da Apple, os aplicativos permaneceram disponíveis.
O que a empresa fez para responder à desconfiança
A Iniciativa Global de Transparência foi lançada em 2017, antes da proibição de 2024, e é a resposta estrutural da Kaspersky a esse tipo de questionamento. As medidas incluem:
- Transferência do processamento e armazenamento de dados de ameaças para data centers na Suíça
- Abertura do código-fonte para revisão independente em centros de transparência
- Auditoria SOC 2 conduzida por uma das quatro grandes firmas de auditoria
- Certificação ISO 27001 para os serviços de dados
Governos que restringiram o software não consideraram essas medidas suficientes. É um impasse entre uma exigência de confiança institucional e um conjunto de garantias técnicas, e ele não se resolve com argumento de laboratório.
Isso afeta quem usa no Brasil?
Do ponto de vista legal, não. A empresa comercializa normalmente, mantém sede latino-americana em São Paulo e presta suporte em português.
Do ponto de vista prático, há um efeito: a instalação no Android passou a exigir loja alternativa ou arquivo APK do site oficial. Aplicativos já instalados continuam funcionando e recebendo atualização do banco de dados de ameaças.
Existe ainda um cenário específico a considerar. Quem presta serviço a órgão público, atua em setor regulado ou tem contrato com cliente estrangeiro pode encontrar cláusulas que restringem fornecedores de determinadas origens. Nesse caso a questão deixa de ser técnica e passa a ser contratual.
Perguntas frequentes
A Kaspersky está proibida no Brasil?
Não. A proibição é dos Estados Unidos.
Descobriram espionagem no software?
Não foi apresentada publicamente evidência de que o software tenha sido usado para espionar usuários civis. A decisão americana se baseou em risco potencial associado à jurisdição da empresa.
Devo desinstalar o meu Kaspersky?
Não há motivo técnico decorrente da proibição. Se o seu caso envolve exigência contratual ou regulatória sobre origem de fornecedor, aí a avaliação é outra.
Outros países também baniram?
Diversos governos adotaram restrições ao uso do software em órgãos públicos ao longo dos anos. O escopo varia bastante entre eles, e cada caso tem alcance próprio.
A empresa voltou aos EUA?
Até a verificação feita em agosto de 2026, não localizei informação de reversão da medida.
Em resumo
Houve proibição, ela é real, e é americana. A justificativa foi risco potencial ligado à jurisdição russa da empresa, sem apresentação pública de evidência de espionagem. A Kaspersky contesta e aponta suas medidas de transparência.
Para o usuário brasileiro, o efeito concreto se limita à instalação no Android. A decisão de continuar usando ou trocar depende menos da notícia e mais do seu contexto específico.